Analítica

Artigo de Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa
"Perspetiva histórica da política externa da Rússia", publicado na revista "Rússia na Política global" em 03 de Março de 2016

As relações internacionais estão em um período muito difícil, e a Rússia, como já aconteceu muitas vezes na história, está no cruzamento das principais tendências que em grande parte determinam o vetor do futuro desenvolvimento global. A este respeito, há diferentes pontos de vista, incluindo dúvidas se a nossa avaliação da situação internacional e da própria posição no mundo é suficientemente sóbria.
Mais uma vez, ouvem-se os ecos da disputa eterna na Rússia entre os ocidentais e os sequazes do seu caminho próprio, único. Há aqueles - tanto no país como no exterior - que estão inclinados a acreditar que a Rússia está quase condenada a ser eternamente atrasada ou alcançar outros, que o país é forçado a adaptar-se constantemente às normas inventadas por outros e, portanto, não pode declarar em voz alta o seu papel nos assuntos mundiais. Gostaria, neste contexto, de fazer algumas observações em relação aos exemplos e paralelos históricos .


Lavrov Sergey Victorovich
Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa

Já há muito tempo tem sido observado que uma política ponderada não pode existir de forma isolada da perspetiva histórica. Recurso à história tanto mais é justificado na medida em que, no último período foi comemorado um número de aniversários. No ano passado, comemoramos o septuagésimo aniversário da Grande Vitória, no ano anterior recordamos o início, há cem anos, da Primeira Guerra Mundial. Em 2012, festejamos o bicentenário da Batalha de Borodino, bem como quatercentenário da libertação de Moscovo dos invasores poloneses. Se pensarmos sobre isso, esses marcos demonstram claramente o papel especial da Rússia na história da Europa e do mundo.

Os fatos históricos não atestam a tese generalizada de que a Rússia tenha sido sempre à margem da Europa, era uma pessoa de fora da política europeia. Recordo, por exemplo, que o batismo da Rússia em 998– a propósito, 1025-mo aniversário deste evento também foi assinalado recentemente - promoveu um salto no desenvolvimento das instituições do Estado, relações sociais e culturais, transformação da Rus 'de Kiev no membro com plenos direitos da comunidade europeia de então. Naquele tempo, o casamento dinástico foi o melhor indicador de papel do país nas relações internacionais, e fala por si o fato que, no século XI, ao mesmo tempo três filhas do Grão-duque Yaroslav o Sábio tornaram-se rainhas, respetivamente, de Noruega e Dinamarca, Hungria, França, e sua irmã tornou-se a esposa do rei polaco, e uma das netas casou-se com o imperador alemão.

Numerosos estudos científicos mostram o alto - às vezes mais alto do que em países da Europa Ocidental - nível cultural e espiritual da Rússia daquele período. Sua incorporação no contexto europeu é reconhecida por muitos pensadores ocidentais proeminentes. Mas, ao mesmo tempo, o povo russo, com a sua própria matriz cultural, sua espiritualidade, nunca se fundiu com o Ocidente. A este respeito, é oportuno recordar a época trágica da invasão mongol que, em muitos aspetos, representava um ponto de viragem para o povo de nossa Alexander Pushkin escreveu: "Os bárbaros não se atreveram a deixar na sua retaguarda a Rússia e voltaram para a sua estepe oriental. A educação cristã foi salva pela Rússia devastada, quase a morrer". É bem conhecido também uma visão alternativa de Lev Gumilyov, que a invasão mongol contribuiu para a formação de uma etnia russa renovada, que a Grande Estepe nos deu um impulso adicional para o desenvolvimento.

Seja como for, é evidente que o tempo é crucial para a aprovação do papel independente do Estado russo no espaço euro-asiático. Lembremo-nos a este respeito a política do grande príncipe Alexander Nevsky, que assumiu a subordinação temporária aos governantes da Horda de Ouro, geralmente tolerantes, para defender o direito do povo russo ter a sua fé, decidir seu próprio destino, apesar das tentativas do Ocidente europeu de subordinar completamente as terras russas, privá-las de sua própria identidade. Eestou convencido que tal política previdente e sábia manteve-se em nossos genes.

A Rússia foi dobrada, mas não quebrada, sob o peso do jugo mongol, e foi capaz de sair desta provação como um único estado, e, posteriormente, no Ocidente e no Oriente, começou a ser visto como uma espécie de herdeiro do Império Bizantino caído em 1453.O país de tamanho impressionante, espalhado por quase todo o perímetro oriental da Europa, começou a crescer naturalmente por conta de grandes áreas dos Urais e Sibéria. Já naquele tempo, ela desempenhou o papel de um fator de equilíbrio poderoso em combinações políticas europeias, incluindo a famosa Guerra de Trinta Anos, pelos resultados da qual na Europa formou-se o sistema de relações internacionais de Vestefália, os princípios do qual, em primeiro lugar, o respeito pela soberania do Estado, são importantes até hoje.

Isto leva-nos para o dilema, que fez-se sentir durante vários séculos. Por um lado, o Estado de Moscovo de rápido crescimento manifestava-se naturalmente sempre com maior peso em assuntos europeus, por outro, os países europeus experimentaram preocupações do gigante emergente no leste e tomavam medidas para isolá-lo, tanto quanto possível, para evitar a participar nos assuntos mais importantes do continente.

Ao mesmo tempo refere-se uma aparente contradição entre a ordem social tradicional e a busca da modernização usando a experiência mais avançada.Na verdade, um país em rápido desenvolvimento não pode evitar de tentar implementar um salto em frente com o apoio da tecnologia moderna, o que não significa necessariamente desistir de seu "código cultural". Sabemos muitos exemplos de modernização das sociedades orientais que não foram acompanhadas por desmantelamento radical de tradições. Isto é especialmente verdadeiro para a Rússia, que na sua essência mais profunda é um dos ramos da civilização europeia.

A propósito, o pedido de atualização com realizações europeias manifestou-se claramente na sociedade russa ainda nos tempos do czar Alexey Mikhailovich, e Pedro I, com o seu talento e energia, deu a este imperativo um caráter explosivo.Com base nas medidas fortes dentro do país, na política externa decisiva e bem-sucedida, o primeiro imperador da Rússia, em curso de pouco mais de duas décadas, conseguiu empurrar a Rússia na linha dos principais Estados europeus. Desde então, a Rússia já não pode ser ignorada, nenhuma questão europeia séria não pode ser resolvida sem levar em conta parecer da Rússia.

Não podemos dizer que esta situação foi conveniente para todos. Ao longo dos séculos seguintes, repetiam-se tentativas para retornar nosso país às posições pré-petrinas. Mas esses cálculos nunca se tornaram realidade. Já em meados do século XVIII, a Rússia vai em um papel central no conflito pan-europeu, isso é, a Guerra dos Sete Anos. As tropas russas em seguida entraram triunfalmente em Berlim - capital do rei prussiano Frederico II que foi considerado invencível - e só a morte repentina da imperatriz Elizaveta Petrovna e a ascensão ao trono de Pedro III que tinha simpatia pelo rei Frederico salvaram Prússia da derrota iminente. Essa série de acontecimentos na história da Alemanha ainda é referida como o "milagre da casa de Brandenburg". Dimensões, poder e influência da Rússia foram significativamente reforçados durante o reinado de Catarina a Grande, chegando a uma situação em que, nas palavras do chanceler Alexander Bezborodko, "nenhuma arma na Europa sem a nossa permissão se atrevia a disparar".

Eu gostaria de citar o parecer do conhecido pesquisador da história russa, secretário permanente Academia Francesa Hélène Carrère d'Encausse, que o Império Russo por todos os parâmetros - o tamanho, a capacidade de gerenciar seus territórios, a longevidade da existência - foi o maior império de todos os tempos. Ao seguir Nikolai Berdyaev, ela defende a ideia de que a Rússia historicamente tem grande missão de uma ponte entre Oriente e Ocidente.

Durante pelo menos os últimos dois séculos, quaisquer tentativas de unir a Europa sem a Rússia e contra ela, invariavelmente, terminavam em uma tragédia terrível, superar as consequências da qual sempre era possível somente com a participação decisiva do nosso país. Refiro-me, em particular, as guerras napoleônicas, no final das quais foi a Rússia que fez o salvador do sistema de relações internacionais baseadas no equilíbrio de forças e consideração mútua dos interesses nacionais e excluindo o domínio total no continente europeu de um único estado. Lembramos que o Imperador Alexandre I teve a participação direta na tomada de decisões do Congresso de Viena, em 1815, o que garantiu o desenvolvimento do continente, sem qualquer conflito armado sério durante os próximos quarenta anos.

A propósito, as ideias de Alexander I podem em um sentido ser consideradas o protótipo do conceito de subordinação dos interesses nacionais aos objetivos comuns, tendo em conta principalmente a manutenção da paz e da ordem na Europa. Nas palavras do imperador russo, "não pode ser mais política inglesa, francesa, russa, austríaca; há apenas uma política comum, a ser adotada seja por nações que por soberanos para o bem comum".

O sistema de Viena foi destruído novamente, na sequência do desejo de empurrar a Rússia para o lado da estrada europeia, com o qual Paris estava obcecada durante o reinado do imperador Napoleão III. Em uma tentativa de montar uma aliança anti russa, o monarca francês estava pronto, como um grande mestre infeliz, a sacrificar todas as outras figuras. O que se viu? Sim, a Rússia foi derrotada na Guerra da Crimeia de 1853-1856, das consequências da qual conseguiu livrar-se depois de um curto período de tempo, devido à política consistente e de longo alcance do chanceler Alexander Mikhailovich Gorchakov. Quanto a Napoleão III, seu governo terminou em cativeiro alemão, e o pesadelo do confronto franco-alemã durante décadas se elevou sobre a Europa Ocidental.

Aqui está mais um episódio relacionado com a Guerra da Crimeia. Como vocês sabem, o imperador austríaco, em seguida, recusou-se a ajudar a Rússia, que alguns anos antes, em 1849, veio em seu socorro durante a revolta húngara. Há palavras pronunciadas a este respeito pelo chanceler austríaco Felix Schwarzenberg: "Nós vamos surpreender a Europa com nossa ingratidão". Em geral, podemos dizer que o desequilíbrio do mecanismo pan-europeu iniciou os processos que levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Faço notar que naquele período a diplomacia russa também apresentava as ideias à frente de seu tempo. Não é muitas vezes que lembramos as Conferências de Paz de Haia de 1899 e 1907, convocadas por iniciativa do Imperador Nicolau II, que foram as primeiras tentativas de chegar a acordo sobre como implantar a reverter a corrida armamentista e os preparativos para a guerra devastadora.

A Primeira Guerra Mundial levou à morte e sofrimento de incontáveis milhões de pessoas e o colapso de quatro impérios. Neste contexto, é oportuno lembrar ainda outro aniversário, que será no próximo ano - o centenário da revolução russa. Agora, temos o problema agudo de desenvolver uma avaliação equilibrada e objetiva dos acontecimentos, especialmente em um ambiente onde, particularmente no Ocidente, há muitas pessoas que querem utilizar esta data para os novos ataques de informação sobre a Rússia, para representar a revolução de 1917 sob a forma de um golpe bárbaro, que quase fez descarrilhar toda a história europeia subsequente. E ainda pior - colocar o regime soviético em pé de igualdade com o nazismo, confiar-lhe a responsabilidade pela eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Sem dúvida, a revolução de 1917 e a Guerra civil que se seguiu foi uma tragédia terrível para a nossa nação. No entanto, as tragédias eram todas as outras revoluções. Isto não impede, por exemplo, os nossos colegas franceses exaltar seus choques, que para além dos slogans de liberdade, igualdade e fraternidade trouxeram a guilhotina e rios de sangue.

É inegável que a Revolução Russa foi o maior evento em termos de impacto sobre a história do mundo, e o impacto foi controverso e multifacetado. Tornou-se uma espécie de experimento para colocar em prática as ideias socialistas, que naquele período tinham a mais ampla distribuição na Europa, e seu apoio pela população foi devido, numa grande parte, ao desejo da gente para a organização social baseada nos inícios coletivos, de comunidade.

Para científicos sérios é evidente uma influência enorme de transformações na União Soviética sobre a formação de assim chamado "estado social" ou "estado-providência" na Europa Ocidental no período após a Segunda Guerra Mundial. Os governos europeus introduziram medidas sem precedentes de proteção social mesmo sob a influência do exemplo da União Soviética e em um esforço para cortar o chão sob os pés de forças políticas de esquerda.

Podemos dizer que quarenta anos após a Segunda Guerra Mundial tornou-se um período surpreendentemente favorável para o desenvolvimento da Europa Ocidental, que foi liberada da necessidade de tomar suas próprias decisões importantes, e sob uma espécie de "guarda-chuva" da oposição soviética-americana recebeu uma oportunidade única de desenvolvimento tranquilo. Nessas condições, nos países da Europa Ocidental foram parcialmente implementadas as ideias de convergência de modelos capitalista e socialista, que, como uma forma preferida de progresso socioeconómico, foi nomeada por Pitirim Sorokin e outros pensadores eminentes do século XX. E agora, ja durante um par de décadas, nós estamos a observar na Europa e ns EUA o processo inverso: a redução da classe média, aumento da desigualdade social, a eliminação dos controlos de grandes empresas.

É inegável o papel que a União Soviética desempenhou na descolonização, na confirmação nas relações internacionais de princípios como o desenvolvimento independente dos estados e do seu direito de determinar seu próprio futuro.
Não me vou debruçar sobre os pontos associados ao escorregamento da Europa na Segunda Guerra Mundial. É óbvio que aqui novamente o papel fatal foi interpretado por aspirações anti-russas de elites europeias, a sua vontade de lançar contra a União Soviética a máquina de guerra de Hitler. E de novo, para corrigir a situação após este terrível desastre, foi necessária uma participação fundamental do nosso país na determinação dos parâmetros e da ordem europeia e até mundial.

Neste contexto, a ideia de uma "colisão de dois totalitarismos", que está agora a ser implementada ativamente na consciência europeia, incluindo ao nível dos manuais escolares, é infundada e imoral. A União Soviética, apesar de todos os males sistémicos então existentes no nosso país, nunca colocou-se o fim de destruir povos inteiros. Lembre-se de Winston Churchill, que toda a sua vida foi oponente de princípio da União Soviética e desempenhou um papel importante na volta da Aliança durante a Segunda Guerra Mundial para um novo confronto com a União Soviética. Ele, no entanto, francamente admitiu: "O conceito de viver de acordo com a consciência é típico para os russos".

A propósito, olhando honestamente para a posição dos países europeus mais pequenos, que pertenciam anteriormente ao Pacto de Varsóvia, e agora à CE e à OTAN, é óbvio que se deve falar não da transição da subordinação à liberdade, como os ideólogos ocidentais gostam dizer, mas simplesmente sobre a mudança de liderança. O presidente russo Vladimir Putin falou recentemente bem sobre isso, e os representantes destes países a portas fechadas admitem que não podem tomar qualquer decisão importante sem sinais de Washington e Bruxelas.

Parece que, no contexto do centenário da revolução russa, é muito importante compreender profundamente a continuidade da história russa, da qual é impossível cancelar alguns determinados períodos, e a importância da síntese de todas as tradições positivas e da experiência histórica do nosso povo, como base para um avanço vigoroso e a aprovação do rol de um dos principais centros do mundo moderno, que assumimos legalmente, de um provedor dos valores de desenvolvimento, da segurança e estabilidade.

A ordem mundial do pós-guerra, com base no confronto de dois sistemas, é claro, estava longe de ser ideal, mas é, no entanto, possível preservar os fundamentos da paz internacional e evitar o pior - a tentação de recorrer ao uso massivo estava nas mãos de políticos de destruição em massa, sobretudo nuclear. O mito da vitória na Guerra Fria enraizado no Ocidente e devido ao colapso da União Soviética é infundado. Foi a vontade do povo do nosso país à mudança, multiplicada por circunstâncias negativas.

Esses eventos levaram, sem exagero, às mudanças tectônicas na paisagem internacional, às mudanças críticas de todo o quadro da política mundial. O rendimento da Guerra Fria e recusa do confronto ideológico irreconciliável associado proporcionaram uma oportunidade única para a reorganização da arquitetura europeia nos princípios da segurança indivisível e igual, e uma cooperação reforçada sem linhas divisórias.

Há uma chance real para uma superação decisiva da divisão da Europa e a realização do sonho de uma casa comum europeia, apoiado por muitos pensadores e políticos no continente, incluindo o presidente francês Charles de Gaulle. O nosso país tem sido completamente aberto para tal opção, e já apresentou numerosas propostas e iniciativas a este respeito. Seria lógico criar novas bases de segurança europeia através do reforço do componente político-militar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Vladimir Putin, em uma entrevista para a edição alemã Bild, citou recentemente as palavras do político alemão proeminente Egon Bahr, que propôs ideias semelhantes.

Os parceiros ocidentais, infelizmente, passaram pelo outro caminho, escolheram a expansão da OTAN para o Leste, a aproximação às fronteiras russas do espaço geopolítico controlado por eles. Esta é a raiz dos problemas sistémicos dos quais agora sofrem as relações da Rússia com os Estados Unidos e a União Europeia. Vale ressaltar que George Kennan, que é considerado um dos criadores da política americana de contenção da União Soviética, no fim da vida chamou a decisão de expandir a OTAN o erro trágico.

O problema profundo ligado com o curso ocidental, reside no fato de que foi construído sem a devida consideração do contexto global. Mas o mundo moderno no contexto da globalização é caracterizado pela interdependência sem precedentes de vários estados, e hoje é impossível construir as relações entre a Rússia e a UE como se ainda estivessem no período da Guerra Fria, no epicentro da política mundial. Não podemos deixar de ter em conta os processos poderosos que ocorrem na região Ásia-Pacífico, o Oriente Médio, na África e América Latina.

O principal sinal dessa fase é a mudança rápida em todas as esferas da vida internacional. E muitas vezes toma uma direção inesperada para todos. Por exemplo, hoje é evidente a inconsistência do conceito popular da década de 1990 do "fim da história", a autoria do qual pertence ao sociólogo e cientista político norte-americano conhecido Francis Fukuyama. Supunha que o rápido desenvolvimento da globalização marcava a vitória final do modelo capitalista liberal, e a tarefa do resto é apenas adaptar-se rapidamente a ele, sob a orientação dos professores ocidentais sábios.

Na verdade, a segunda edição da globalização (sua onda anterior ocorreu antes da Primeira Guerra Mundial) levou à dispersão do poder económico mundial e, consequentemente, da influência política, ao surgimento de novos grandes centros de poder, especialmente na região Ásia-Pacífico. O exemplo mais marcante foi o salto brusco para frente da China, que, graças ao crescimento económico sem precedentes nas últimas três décadas, ocupou a segunda posição, e de acordo com os cálculos de paridade de poder aquisitivo, até mesmo tornou-se a primeira economia do mundo. Neste contexto, pode ser assumida, como se costuma dizer, como um "fato médico", uma pluralidade de modelos de desenvolvimento que exclue a monotonia maçante nos limites de um único sistema de coordenadas ocidental.

Assim, houve uma redução relativa da influência do chamado "Ocidente histórico", que durante quase cinco séculos acostumou a ver-se no papel de árbitro dos destinos da humanidade. Foi aumentada a concorrência sobre a formação da ordem mundial do século XXI. E a transição da Guerra Fria para um novo sistema internacional foi muito mais longa e mais dolorosa, do que se viu 20-25 anos atrás.

Neste contexto, uma das questões básicas em assuntos internacionais hoje é a forma que vai tomar esta competição natural entre as principais potências mundiais. Nós vemos como os EUA e a aliança ocidental liderada por eles tentam com qualquer meio manter uma posição dominante ou, usando o vocabulário americano, garantir a sua "liderança global". Usa-se uma variedade de métodos de pressão, sanções económicas, e até mesmo força de intervenção direta. Conduzem guerras de informação em larga escala. Foram criadas e aprovadas as tecnologias de mudança inconstitucional de regime através da implementação de "revoluções coloridas". Ao mesmo tempo, para os povos que são alvo de tais ações, as revoluções democráticas são devastadoras. Nosso país, que passou em sua história através o período da promoção da transformação artificial no exterior, acredita firmemente em mudanças evolutivas a serem implementadas nas formas e a uma velocidade correspondente às tradições e nível de desenvolvimento de uma dada sociedade.

A propaganda ocidental acostuma-se agora culpar a Rússia de "revisionismo", de presumível desejo de destruir o sistema internacional existente, como se fossemos nós a bombardear a Jugoslávia em 1999 em violação da Carta das Nações Unidas e da Acta Final de Helsínquia. Como se foi a Rússia que ignorou o direito internacional ao invadir o Iraque em 2003, e perverteu a resolução do Conselho de Segurança da ONU, derrubando pela força o regime de Muammar Gaddafi na Líbia em 2011. Estes exemplos podem ser continuados.

Os argumentos sobre "revisionismo" não resistem a uma análise crítica e baseiam-se essencialmente na simples lógica primitiva, assumindo que "chamar a melodia" nos assuntos mundiais só pode Washington hoje. De acordo com esta abordagem, pode-se ver que o princípio uma vez formulado por George Orwell transferiu-se a nível internacional: que todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros. No entanto, as relações internacionais hoje é um mecanismo demais complicado a ser controlado só de um centro. Isto é confirmado pelos resultados da intervenção dos EUA: Estado líbio na verdade não existe, o Iraque está oscilando à beira do colapso - e a lista continua.

Uma solução confiável para os problemas do mundo moderno só pode ser alcançada através de uma cooperação séria e honesta dos estados principais e das suas associações, a fim de enfrentar os desafios comuns. Essa interação deve ter em conta o mundo multicolor moderno, sua diversidade cultural e civilizacional, refletir os interesses dos principais componentes da comunidade internacional.

A experiência tem mostrado que, quando estes princípios são aplicados, na prática, é possível alcançar resultados tangíveis, concretos. Devo mencionar, em particular, um acordo sobre a resolução de questões relacionadas com o programa nuclear iraniano, a eliminação das armas químicas na Síria, a harmonização da cessação das ações militares na Síria, a produção dos parâmetros básicos de um acordo climático global. Isso demonstra a necessidade de restaurar a cultura da pesquisa de compromissos, de apoio trabalho diplomático, que pode ser difícil, mesmo cansativo, mas que permanece, no entanto, na verdade, a única maneira de garantir o modo de resolver problemas por meios pacíficos, conveniente para todos.

Tais abordagens nossas hoje são divididas pela maioria dos países do mundo, incluindo os parceiros chineses, os outros países do BRICS, OCX, nossos amigos de UEE, OTSC, CEI. Em outras palavras, podemos dizer que a Rússia não está lutando contra ninguém, mas para a resolução de todos os problemas numa base de igualdade e de respeito mútuo, o que por si só pode ser uma base confiável para a melhoria a longo prazo das relações internacionais.

Consideramos a nossa tarefa mais importante unir os esforços contra os desafios não afetados, mas muito reais, o principal dos quais hoje é agressão terrorista. Os extremistas do EIIL, Jabhat al-Nusra e similares foram os primeiros a controlar grandes áreas da Síria e do Iraque, eles estão tentando estender a sua influência a outros países e regiões, cometem atos de terrorismo em todo o mundo. A subestimação deste risco só pode ser considerada como uma miopia criminal.

O Presidente russo chamou para a formação de uma ampla frente para a derrota militar de terroristas. Uma contribuição importante para o esforço é feita pelas Forças Aeroespaciais da Rússia. Ao mesmo tempo, trabalhamos vigorosamente no interesse de estabelecer uma ação coletiva em uma solução política dos conflitos nesta região assolada por uma crise profunda.

Mas sublinho: o sucesso a longo prazo só pode ser alcançado com base na promoção da parceria entre civilizações, baseada em respeitosa interação de diversas culturas e religiões. Acreditamos que a solidariedade humana deve ter uma base moral, formada por valores tradicionais que são amplamente compartilhados pelas religiões mais importantes do mundo. Gostaria, neste contexto, chamar a atenção à declaração conjunta do Patriarca Kirill e do Papa Francisco, em que, inter alia, expressaram seu apoio à família, como o centro natural da vida e da sociedade humana.

Repito: não estamos buscando confronto com os Estados Unidos nem com a União Europeia nem com a OTAN. Pelo contrário, a Rússia está aberta para a mais ampla cooperação possível com os parceiros ocidentais. Continuamos a acreditar que a melhor maneira de garantir os interesses dos povos que vivem no continente europeu, seria a formação de um espaço económico e humanitário comum, que se estendesse do Atlântico ao Pacífico, de modo que a recém-formada União Económica da Eurásia poderia ser um elo integrador entre a Europa e Ásia-Pacífico. Nós nos esforçamos para fazer tudo em nosso poder para superar os obstáculos ao longo do caminho, incluindo a resolução sobre a base de acordos de Minsk da crise ucraniana causada pelo golpe em Fevereiro de 2014 em Kiev.

Refiro-me à opinião do político sábio e com grande experiência, que é Henry Kissinger, o qual, falando recentemente em Moscou, disse que "a Rússia deve ser vista como um elemento-chave de qualquer equilíbrio global, em vez de como primariamente uma ameaça para os Estados Unidos ... Eu estou falando, - frisou - da oportunidade de diálogo, a fim de garantir o nosso futuro comum, e não para aprofundar o conflito. Para fazer isso, as partes têm que respeitar os valores e interesses de vida de cada uma delas". Nós aderimos mesmo a esta abordagem. E vamos continuar a defender nos assuntos internacionais os princípios do direito e da justiça.

O filósofo russo Ivan Ilyin, pensando sobre o papel da Rússia no mundo como uma grande potência, enfatizou que "grande poder não é determinado pelo tamanho do território e número de habitantes, mas pela capacidade do povo e seu governo a assumir o encargo dos grandes problemas internacionais e lidar com estes problemas de forma criativa. Um grande poder é aquele que, afirmando a sua existência e o seu interesse... traz uma ideia jurídica criativa, edificadora em toda a assembleia dos povos, em todo o "concerto" de povos e nações". É difícil discordar.

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